

Posso apostar que quase ninguém aqui tinha algum conhecimento sobre o universo das corridas de cavalo, muito menos sobre o cenário do turfe japonês, até que Uma Musume apareceu com toda a sua força, assim como a Gold Ship.
Diferente de Carros em 2006, que apresentou a Nascar a um público mais amplo, Uma Musume não parecia promissora em seu lançamento, seja no jogo gacha, quanto na adaptação do anime, que foi lançada antes do produto base, por problemas de planejamento.
Como um apreciador genuíno do turfe, posso afirmar que é um cenário bastante nichado e incomum no mundo dos esportes. Vindo do Japão, conhecido por obras como Hajime no Ippo e Mou Ippon, é surpreendente que tenha surgido algo tão rico em detalhes e ainda ter conseguido ser cativante, mesmo sendo algo pouco conhecido mundialmente, apesar do valor significativo que representa, com vendas de cavalos, reprodução de linhagens e as apostas.


Diversas obras se destacaram por serem especialmente cativantes por se diferenciar da maioria. No Game No Life, em 2014, criada pelo nipo-brasileiro Thiago Furukawa Lucas, apresentou um conceito completamente inédito, misturando elementos de Jogos Vorazes com mecânicas de jogos em uma proposta bem estruturada e que ainda é aclamada, especialmente com a chegada de uma nova temporada.
Por sua vez, Konosuba, em 2016, poderia ser considerado um isekai comum, mas se tornou uma espécie de ‘sitcom do anime’, recheado de sarcasmo e referências ao próprio gênero, consolidando-se como um dos melhores (ou o melhor) animes do estilo. No entanto, ambos seguem estilos artísticos que são bastante familiares e utilizam composições já conhecidas: um toque de ecchi aqui, cenas bem criadas lá, e piadas sutis.
Em termos gerais, já existiam aspectos que possuíam um alto potencial de aceitação, que, quando bem juntados, conquistaram o público. Agora, falando como escritor e fã do esporte, não vejo uma proposta que será bem-sucedida nesse gênero específico, com nuances bem implementadas. Pelo menos, não fora da demografia seinen, ou com um enfoque particular, o que poderia dificultar sua disseminação.
A apreciação pelo que é belo


Super Eleven e Blue Lock empregam a estética shonen típica, mas falam sobre um esporte amplamente divulgado e de fácil compreensão, em contrapartida ao que o turfe e hipismo apresentam. Aqui, começa algo crucial para entender o fenômeno de Uma Musume — o toque japonês. Certamente não fui o único a refletir sobre isso: a equipe da Cygames sabia que esse tipo de esporte não atrairia um público convencional.
O primeiro passo foi criar um folclore novo, quase mítico, para o universo da obra. Não se trata apenas de seres híbridos entre humanos e cavalos — a criação é Uma Musume, uma raça nova que se assimilou aos humanos, herdando características de equinos de outra dimensão (a nossa).
Não é uma simples antropomorfização de animais, mas sim uma aproximação que confere racionalidade e identificação ao público. A palavra (馬) refere-se a cavalo, enquanto Musume (娘) significa meninas, resultando em uma fórmula que estabelece um vínculo visual claro ao espectador, respeitando o legado de cada cavalo real representado. A adoção de uma abordagem similar à de BoJack possivelmente não teria funcionado!


Séries com uma predominância de personagens femininas, como Lucky Star, K-on, Azumanga Daioh, se provam bem-sucedidas não meramente pelo fato de serem protagonizadas por mulheres, mas por apresentarem altos níveis de carisma e identificação, mesmo para homens como eu. Tanto a beleza quanto a personalidade que as cercam também contribuem, além de terem conseguido atualizar as identidades dos históricos cavalos de corrida do Japão:
Mejiro McQueen com seus cabelos cinzas, lembrando a crina do cavalo real com o mesmo nome, o imenso porte de Hishi Akebono (o maior cavalo a vencer no Japão), e a beleza incomparável de Gold City (que quase se tornou a sensação na Disney no Japão devido à sua crina dourada).
De fato, eles incorporaram e humanizaram elementos reais de uma maneira que qualquer espectador pode se relacionar. Se tivessem adotado uma abordagem excessivamente técnica, teriam restringido muito o público; se fossem muito criativos, poderiam soar estranhas! São mais do que meras demi-humanas ou animais com aparência humanizada — trata-se de um grupo que possui um contexto muito mais elaborado, porém fácil de transmitir e criar dinâmicas envolventes.
Simplificando o complexo


Um cavalo nasce a partir de apostas em uma linhagem genética promissora, é criado para aprimorar essa herança e tratado com cuidado durante anos para atingir seu potencial máximo. Nesse contexto, muitos detalhes complexos surgem. Um desses elementos que foi retratado de maneira incrível é o espetáculo nas pistas!
Como alguém que já esteve em um hipódromo, fez apostas e saiu vitorioso, essa experiência é única, especialmente com as apresentações que ocorrem após as corridas, conhecidas como Winning Drive. As idols, uma representação tipicamente japonesa, sendo as Uma Musume, se apresentam como tal, uma sacada muito inteligente!
Antes mesmo de passar pela linha de chegada, as instituições se transformam em escolas para elas, e as rivalidades reais permanecem, criando interações e diálogos entre os personagens, mostrando que, com uma mente criativa, é possível criar algo tão envolvente. Todo o ecossistema das corridas foi muito bem “traduzido” para uma linguagem compreensível para os fãs de anime, sem desrespeitar sua capacidade intelectual — algo que tem faltado em profusão por aí!


O dualismo apresentado em Uma Musume torna a experiência palpável tanto para fãs de corridas quanto para aqueles que apreciam animes, jogos e mangás. A linhagem Mejiro é uma das mais renomadas e vitoriosas do Japão, retratada com uma personalidade nobre, utilizando um japonês coloquial típico, e com um comportamento aristocrático característico.
Outro cavalo mencionado em Uma Musume é Gold Ship, seu neto. Na vida real, ele ganhou várias corridas, mas era conhecido por sua imprevisibilidade e instabilidade — a tal ponto de ter causado um dos maiores incidentes nas corridas, o Incidente de 12 bilhões de ienes, por ficar agitado no portão de largada, atrasando sua saída.
Após um desempenho promissor, as apostas nele aumentaram, mas o desenrolar da corrida gerou perdas significativas. A cena foi adaptada de maneira cômica no anime, garantindo fidelidade ao retratar a comentarista Junko Hosoe, que expressou sua surpresa com o comportamento do cavalo durante a largada.
O milagre de Teio: a empatia estética


A comentarista foi desenhada de maneira realista, inserida em um contexto útil, uma vez que ela também foi jóquei e agora acompanha as corridas de cavalo do Japão — uma demonstração de atenção aos detalhes! A dinâmica entre as duas no anime é de gato e rato, com Gold Ship complicando a vida de Mejiro McQueen, refletindo suas heranças familiares reais.
O universo esportivo fica ainda mais instigante, especialmente com um dos episódios mais marcantes do turfe mundial, conhecido como ‘O Milagre de Teio’. Tokai Teio teve uma carreira vitoriosa até sofrer diversas lesões e uma fratura, que o mantiveram afastado das corridas durante um ano. Considerado incapacitado de competir novamente, ele surpreendeu a todos na Arima Kinen de 1993, onde, após um início modesto, disparou no final, superando Biwa Hayahide de maneira impressionante!


No anime, essa cena foi recriada com intensa carga emocional, especialmente na narrativa adaptada, já que a segunda temporada se concentrou totalmente em Tokai Teio — e eu tenho certeza de que muitos, incluindo eu, choraram. Essa adaptação é complexa, não em termos de recuperação histórica, pois há muitos registros audiovisuais disponíveis. O desafio é desenvolver disputas entre diversos personagens com suas habilidade únicas sem soar mecânico ou artificial.
Não se trata de dificuldades, mas de capturar a essência da competição: a naturalidade, a paixão, a própria alma! Eles acertaram ao preservar uma narrativa real, mantendo-se fiel. Tenho certeza de que o momento de Teio na segunda temporada encantou muitos, pois a trama se focou nessa transformação em um ícone das pistas.
A obra não foi criada à força para agradar fãs; ela simplesmente ressoou e conquistou o público. Sem dúvida, Tokai Teio continua sendo o único cavalo no turfe a vencer uma corrida após um ano sem competir, mesmo que muitos outros tenham suas pausas, sem que deixem de competir.
A vitória estética


O real é belo, e o belo é real! Essa é a essência do que a obra conseguiu apresentar, gerando um grupo de fãs que antes não conhecia o universo do turfe, mas, através dos personagens, começaram a entender esse mundo de maneira lúdica e eficaz. Rice Shower exemplifica isso, representando um cavalo que foi um verdadeiro “estraga-prazeres”, sempre superando um rival prestes a alcançar um marco histórico.
Ele foi retratado como o ‘assassino negro’, vestindo um traje preto e azul escuro com uma aura sombria. Embora fisicamente não tenha semelhança com o cavalo que representa, sua adaptação em termos de história apresenta uma personalidade tímida e reservada, relutante em aceitar as reações de suas vitórias ao superar as favoritas.
As meninas-cavalo possuem personalidades e estilizações totalmente conectadas ao contexto real, o que se desdobrou na adaptação para o jogo e o anime. A estética é visualmente atraente, não apenas por seus atributos físicos, mas porque tais características são respaldadas em sua identidade dentro da obra e sua dinâmica geral. Symboli Rudolf é a imponente e madura presidente do conselho estudantil, simbolizando em toda sua glória o Imperador que lhe dá nome na vida real.


A estética visual é explorada e comunicada ao público de forma impecável — mesmo que os traços sejam um pouco convencionais, se percebe que há personalidade nelas! Cada detalhe do nosso mundo foi cuidadosamente incorporado na obra. Imagine fazer pesquisas sobre cavalos de corrida, buscando não apenas seus nomes ou características de design, mas também para dar vida aos personagens — e aqui, isso realmente aconteceu.
Cada personagem é singular, delicadamente recebido pelos fãs da obra, valorizando a história do turfe, e o mais impressionante, se destacam em um cenário praticamente inexplorado. Uma Musume criou uma conexão com um público que não sabia nada sobre corridas de cavalos, mas que, através da franquia, passaram a se tornar fãs do segmento.
O carinho por estas personagens foi tão grande a ponto de rescatar partes esquecidas do turfe no Japão. Um grupo de pessoas se uniu para fornecer feno à égua aposentada Haru Urara. Ela nunca venceu uma única corrida, sendo o equino mais derrotado da história do turfe japonês – nem era destinada originalmente para correr, pois não era o tipo ideal para isso.
A realidade moldando a empatia


Os criadores evitavam tê-la em estábulos, pois um animal que nunca venceu não ajudaria nas vendas. Entretanto, devido ao sucesso de Uma Musume, fãs contribuíram com impressionantes 2,5 toneladas de feno — ao menos algo ela conquistou em sua trajetória. O haras, que passava por dificuldades, foi salvo pela mobilização de fãs e novos entusiastas do segmento. É uma coisa ser atraído por interesses pessoais, outra é experimentar empatia tão profunda, mesmo fora de nossas preferências.
A obra conquistou um lugar no coração dos fãs de anime, que agora conhecem o universo do turfe e, por consequência, se tornaram fãs. Será que isso teria ocorrido se fosse apenas uma obra centrada em corridas de cavalos? A empatia gerada na obra tem raízes no mundo real, perfeitamente transpostas para a narrativa, estendendo-se para outros detalhes:
Rice Shower, um “estraga-prazeres”, exala um visual que cativa, transmitindo cuidado e atenção. T.M Opera O, que foi alvo de ataques de torcedores rivais, mas que demonstrou bondade e atenção para com as outras meninas-cavalo. A genialidade psicopática de Agnes Tachyon, que obteve 100% de aproveitamento nas corridas, ou até mesmo Oguri Cap, apreciando comida excessivamente devido a problemas relacionados à sua estatura e biótipo.
O verdadeiro atrativo


Tal como se transcrevem notas em diferentes campos harmônicos, Uma Musume facilitou o acesso a diferentes resultados sem perder a essência. Poderia ainda abordar mais sobre o design dos personagens, que ensina sobre estética atraente e respeitosa, ou até curiosidades sobre o mundo de Uma Musume, mas seria exagerar.
A obra se destaca por sua conexão com a realidade. Ela não se submete a pressões de fandoms e não sucumbe a clichês ou vícios e, ao mesmo tempo, representa de forma contemporânea o mundo real. Não recriou a roda, mas sim fez um anime e jogo que se entrelaçam de maneira acessível, apesar do tópico pouco comum. O enredo é simples, mas bem estruturado, em um mundo habilmente criado, contando com trilhas sonoras que evocam as fanfarras do turfe japonês, personagens que representam suas origens reais, resultando em uma homenagem ao turfe inigualável!


A criação conseguiu gerar empatia em relação a um tema completamente desconhecido para o público em geral e, de certa forma, transformou o próprio cenário das corridas de cavalos. A Cygames se tornou patrocinadora de corridas, os fãs começaram a apoiar financeiramente estábulos, o turfe conquistou novos adeptos e as transmissões das corridas no Japão passaram a ter suporte em inglês — tudo isso devido a um projeto bem elaborado que respeitou todos os princípios do que os japoneses fazem com suas obras!
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